
Uma pesquisa de Iniciação Científica, realizada no âmbito do Departamento de Ciências Sociais, tem investigado a cultura incel, termo que se refere às comunidades on-line, compostas majoritariamente por homens jovens, que se definem como incapazes de estabelecer relações românticas ou sexuais com mulheres. A masculinidade tóxica do movimento red pill (uma alusão à pílula vermelha do filme Matrix, que permite encarar a realidade e liberta da ilusão) e o racismo estrutural também fazem parte do estudo, que se desdobra no entrelaçamento entre a solidão de homens negros marginalizados e as conexões políticas e econômicas das comunidades.
Intitulado Análise psicossocial da cultura incel: explorando facetas on-line e na vida real, o trabalho é de autoria do estudante de graduação em Administração Yan Cardoso, que, sob orientação da professora do Departamento de Ciências Sociais Maria Cristina Dadalto, analisa a organização desses grupos (tanto nos ambientes digitais quanto nas interações cotidianas), suas dinâmicas internas, a diversidade de suas perspectivas e suas influências sociais, econômicas e morais, bem como os fatores psicossociais (como identidade, emoção e exclusão) que os moldam.
Cultura incel
“Não são monstros misóginos e nem todas essas caricaturas criadas pela mídia. Defini-los é navegar entre abismos”. Assim Cardoso entende a comunidade incel, termo derivado da expressão em inglês involuntary celibates (celibatários involuntários) e criado em 1990 pela canadense Alana Boltwood, que desejava proporcionar um espaço de diálogo no qual homens e mulheres pudessem falar sobre solidão e dificuldades em formar relacionamentos românticos e sexuais. “Era um fórum onde corações desenganados poderiam colocar para fora suas dores, sem julgamento”, explica o pesquisador.
Com a massificação da internet, houve uma migração das comunidades incel para o ambiente on-line, o que, segundo o estudante, propiciou a ascensão de um “ramo particularmente tóxico do antifeminismo” chamado “manosfera” ou “machosfera”, que propaga discursos de ódio e violência contra as mulheres. De acordo com o pesquisador, enquanto os incels focam na solidão, os red pills transformam a frustração em uma ideologia de guerra contra o “sistema dominador das mulheres”. “Esse movimento é geralmente unido na sua adesão à ‘filosofia’ da pílula vermelha, que supostamente liberta os homens de viver em uma ilusão feminista. A internet transformou a vulnerabilidade em veneno”, avalia.
Atualmente com 24 anos, Cardoso conheceu alguns fóruns incel aos 13 e atuou como observador participante até os 19. Homem jovem e negro, ele conta que “sentia o que eles sentiam”, pois não se encaixava nos estereótipos dos “príncipes brancos” das revistas adolescentes. “Vivi a solidão afetiva que muitos associam ao universo incel, mas percebi que a exclusão racial adicionava camadas invisíveis a essa dor. Enquanto a cultura incel frequentemente reduz a rejeição a questões estéticas ou de ‘status’, minha vivência mostrou que o racismo é estruturado. Isso me levou a questionar como a comunidade incel ignora a interseccionalidade: um negro não é só rejeitado por ‘baixa altura’ ou ‘mandíbula fraca’, mas por estereótipos racistas enraizados”, ressalta.
Para a orientadora da pesquisa, além da atualidade do tema (que ganhou mais destaque após a exibição da série Adolescência, veiculada em uma plataforma de streaming), o estudo de Cardoso é importante por provocar nas pessoas a curiosidade de se aprofundar em assuntos como red pill e “machosfera”. “Quando temos um estudo desenvolvido por um pesquisador como o Yan, que conheceu esse submundo sendo um rapaz negro e que já se sentiu rejeitado, isso nos põe em alerta; nos obriga a olhar para a nossa sociedade e entender como ela é estruturalmente racista e machista, além de mostrar que a família tem que estar mais presente e que o silêncio precisa ser rompido”, avalia Dadalto.
Resultados
Cardoso utiliza conceitos acadêmicos, abordagem qualitativa e métodos de etnografia virtual (por meio da qual ele explora as práticas sociais que acontecem na internet e os significados que tais práticas têm para os indivíduos) para entender como a incapacidade de alcançar padrões sociais associados ao sucesso romântico ou estético alimenta frustrações e coopta os homens para esses movimentos.
Como resultado da pesquisa, ele identifica uma comunidade incel bastante diversificada: “Não é um grupo único, com pensamentos iguais. Há desde homens que reproduzem discursos de ódio contra mulheres até aqueles que tentam ressignificar a própria identidade, buscando apoio emocional sem cair na misoginia. Essa variedade de vozes revela que a solidão e a exclusão romântica não têm uma única cara, elas se misturam com frustrações pessoais, pressões sociais e, em muitos casos, com questões estruturais, como racismo ou desigualdade econômica, que a narrativa incel tradicional costuma ignorar”.
Com seu trabalho, Cardoso busca discutir como a falta de reconhecimento social pode levar à construção de uma identidade coletiva marcada pelo ressentimento. “Minha pesquisa, no fim, é uma busca por respostas que a própria comunidade incel não me deu. É um lembrete de que nenhum menino nasce odiando. Não quero apenas repetir o que a mídia já destacou sobre misoginia ou ataques violentos, mas explorar as nuances que fazem essa comunidade ser ao mesmo tempo um refúgio para alguns e um terreno fértil para a radicalização de outros”, conclui.
Imagem: Freepik