Garantir água potável ainda é um desafio para milhões de pessoas no Brasil. Dados recentes mostram que cerca de 33 milhões de brasileiros não têm acesso adequado à água segura, realidade que atinge de forma mais intensa comunidades rurais e regiões com infraestrutura precária. É nesse contexto que a Ufes, em parceria com o Instituto Água Segura (Itas), atua por meio do projeto Catalyst 2030 – Água potável para comunidades vulneráveis, que une pesquisa científica e impacto social ao levar filtros potabilizadores de água diretamente para residências da zona rural de Vila Velha, município da Região Metropolitana da Grande Vitória.
O projeto prevê a doação e validação de filtros domésticos para famílias da comunidade do Xuri, com o objetivo de garantir água potável exatamente no ponto onde ela é consumida, a partir de fontes como chuva, poços ou caminhões-pipa. A tecnologia adotada tem como base os tradicionais filtros de argila, amplamente utilizados no país, mas incorpora etapas adicionais de filtração, adsorção em carvão ativado e desinfecção, capazes de remover partículas, microrganismos e contaminantes que comprometem a qualidade da água.
Na primeira fase da ação, dez filtros foram instalados, beneficiando 30 famílias rurais selecionadas pela Associação de Moradores do Xuri. O professor do Departamento de Engenharia Ambiental (DEA/Ufes) Ricardo Franci, coordenador do projeto, diz que a iniciativa dialoga com outras experiências de extensão universitária. No Pará, por exemplo, há um trabalho conjunto entre a Ufes, o Itas e a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que envolve a doação inicial de 22 filtros para famílias de comunidades ribeirinhas da região de Santarém, o que, segundo Franci, amplia o alcance do projeto e permite uma análise mais abrangente dos impactos sociais do acesso à água potável.
Diferencial
Segundo o professor, o principal diferencial da proposta da Ufes está no tratamento da água diretamente no ponto de consumo, o que reduz os riscos de contaminação após o armazenamento e dispensa o uso de produtos químicos. “Nós turbinamos o velho e bom filtro de barro, que originalmente remove apenas partículas em suspensão”, ressalta. Ao sistema tradicional foram adicionados um filtro de carvão ativado recarregável, com vida útil média de três a quatro meses, e uma lâmpada ultravioleta (UV), cuja durabilidade estimada é de cerca de dez mil horas.
Franci explica que o carvão ativado é responsável por remover poluentes dissolvidos, como pesticidas, hidrocarbonetos, resíduos de medicamentos e matéria orgânica, além de reduzir a cor da água. Já a lâmpada UV atua na eliminação de microrganismos patogênicos, como vírus e bactérias, tornando a água adequada para o consumo humano. O sistema foi desenvolvido para ser simples, acessível e de fácil manutenção, permitindo que as próprias famílias realizem os cuidados básicos.
Além da distribuição dos equipamentos, o projeto envolve um conjunto de atividades de pesquisa aplicada, com a participação de professores, pesquisadores, técnicos e estudantes da Ufes. As etapas incluem a montagem de protótipos, testes em laboratório, definição de metodologias, validação em condições reais nas residências e monitoramento contínuo da qualidade da água.
Atualmente, a Universidade contribui para o aperfeiçoamento da tecnologia por meio de duas teses de doutorado em andamento, além da participação de outros professores do DEA, como Edumar Cabral, Yuri Nariyoshi e Regina Keller.
Expansão
A origem da tecnologia está diretamente ligada à vivência do próprio coordenador do projeto: “Moro na área rural do Xuri, onde o abastecimento de água é individual e depende de água de poços. Desenvolvi a tecnologia para potabilizar a água que minha família consome”. A solução chamou a atenção do Itas por se tratar de uma inovação simples, de baixo custo e com grande potencial de aplicação em áreas socialmente vulneráveis.
A partir dessa parceria, o Itas apresentou o projeto ao Fundo Catalisador 2030 (Catalyst 2030), que viabilizou o financiamento para a doação dos filtros no Xuri. Os resultados iniciais abriram caminho para novas frentes de atuação, com doações previstas para comunidades do Pará e, em breve, para a região de Ubatuba, no interior de São Paulo, reforçando o potencial de expansão da iniciativa.
Fotos: Projeto Catalyst 2030
Universidade Federal do Espírito Santo